Já cansado, o lobo atravessa a selva como quem conhece cada sombra...
A selva, outrora casa, virou ameaça constante — um campo infestado de hienas tolas, barulhentas, que só sobrevivem em bando e acreditam que o número substitui a força.
O lobo, às vezes, já não sente tanta fome.
Não por fraqueza, mas por cansaço.
Não quer caçar qualquer presa, não por piedade — lobos não conhecem essa palavra — mas porque sabe escolher o momento.
E sabe também que carne de hiena é indigesta, de pouca validade, não alimenta a alma nem o instinto.
Então ele se retira.
Observa.
Silencioso.
Mas nunca deixa de ser lobo.
A fome sempre volta.
E quando volta, não avisa.
O lobo retorna ao campo.
E dessa vez, as hienas devem se preparar.
Vai doer. Muito.
Lobos não sentem pena, remorso ou compaixão.
Ainda menos um lobo velho que já perdeu demais para hesitar.
Aproveitem o campo enquanto podem.A selva não perdoa distrações.Logo o silêncio acabae a caça começa de novo.....no mundo nem tudo é sobre lobo ou ovelhas mas sim sobre sobreviver.
Jorge Tobias
O Vazio da Noite Gente de verdade não tem medo da noite. Respeita. Porque sabe que é nela que a vida conversa mais baixo — e mais sério. Quando a casa aquieta, o rádio se cala e o café já esfriou no bule, vem o vazio. Não é tristeza. É sobra de dia mal resolvido. É nesse horário que o homem senta na beira da cama, a mulher ajeita a toalha na mesa sem ninguém pedir, e o pensamento começa a andar solto, igual cachorro sem dono. De dia, todo mundo sabe o que fazer. Tem serviço, tem conta, tem conversa fiada pra disfarçar. À noite não. À noite a gente é só o que é. Gente de verdade pensa nos erros que não consertou, nas palavras que engoliu, nos sonhos que ficaram pra depois — e no depois que nunca chega. Pensa baixo, pensa fundo, pensa sozinho. O vazio da noite ensina sem falar. Mostra que nem toda força é barulho. Que às vezes aguentar em silêncio é o maior ato de coragem que existe. E quando o sono vem, não resolve nada. Mas dá um acordo. Uma trégua. No outro dia, a vida continua...

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