O Vazio da Noite Gente de verdade não tem medo da noite. Respeita. Porque sabe que é nela que a vida conversa mais baixo — e mais sério. Quando a casa aquieta, o rádio se cala e o café já esfriou no bule, vem o vazio. Não é tristeza. É sobra de dia mal resolvido. É nesse horário que o homem senta na beira da cama, a mulher ajeita a toalha na mesa sem ninguém pedir, e o pensamento começa a andar solto, igual cachorro sem dono. De dia, todo mundo sabe o que fazer. Tem serviço, tem conta, tem conversa fiada pra disfarçar. À noite não. À noite a gente é só o que é. Gente de verdade pensa nos erros que não consertou, nas palavras que engoliu, nos sonhos que ficaram pra depois — e no depois que nunca chega. Pensa baixo, pensa fundo, pensa sozinho. O vazio da noite ensina sem falar. Mostra que nem toda força é barulho. Que às vezes aguentar em silêncio é o maior ato de coragem que existe. E quando o sono vem, não resolve nada. Mas dá um acordo. Uma trégua. No outro dia, a vida continua...